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Desabastecimento pós-greve sustenta preços do leite

20 de junho de 2018

A greve dos caminhoneiros no final de maio e a consequente redução da oferta vêm pesando no processo de formação de preços do leite no campo e deve garantir a continuação do movimento de alta nos próximos meses, de acordo com boletim divulgado pelo Cepea. Antes, ainda havia dúvidas sobre a continuidade da valorização do leite ao produtor em junho e julho, por conta da demanda enfraquecida. “O bloqueio de rodovias e o desabastecimento de combustíveis prejudicaram o fornecimento de insumos para a produção e também o transporte do leite para as indústrias. Assim, a oferta, já impactada pelo clima desfavorável, foi ainda mais reduzida com o descarte de leite no campo”, afirma a pesquisadora Natália Grigol.

Segundo estudo recente do Rabobank, a captação recuou 20% no País apenas em maio, o que deve diminuir a oferta em 6% no segundo trimestre, na comparação anual. Em relação ao mesmo período de 2017, o banco estima queda de 9%. Nesse cenário de estoques reduzidos no varejo e na indústria, nos últimos 15 dias úteis (de 25/05 a 15/06), o preço do leite UHT (longa-vida) comercializado entre indústrias e atacado do estado de São Paulo registrou alta acumulada de 29,3%, saltando de R$ 2,45/litro para R$ 3,15/l. “O aumento expressivo nos valores ocorreu como única saída para as empresas recomporem seus estoques e poderem, assim, normalizar seus negócios – o que deve ocorrer até o final de junho”, explica a pesquisadora do Cepea. Como o UHT é formador importante de preços do leite no campo, o preço do leite ao produtor deve registrar a quinta alta seguida em junho e superar até mesmo o preço do mesmo mês em 2017.
 
Mesmo com o início da safra no Sul do País, a oferta deve continuar sendo pressionada para baixo nos próximos meses devido ao atraso das chuvas na região, o aumento dos valores dos grãos e o grande número de produtores que deixaram a atividade em 2017 por causa dos baixos preços pagos. “Além disso, o racionamento da dieta dos animais, por conta da escassez de insumos durante a greve, também pode comprometer o funcionamento fisiológico dos animais, os picos de lactação e a produtividade nos próximos meses. Assim, é possível que a menor oferta continue a pesar na precificação do leite e sustente a valorização também em julho”, diz Natália no boletim. A pesquisadora, porém, ressalta que a continuidade das altas é bastante incerta depois da normalização dos negócios e reabastecimento dos estoques e gôndolas. “Diante disso, é possível que a estabilidade que antecede a queda de preços tipicamente observada em setembro possa, neste ano, se adiantar”.
 
Custos de produção
 
Maio foi o quinto mês consecutivo com alta nos custos de produção da pecuária leiteira. De acordo com o Cepea, o Custo Operacional Efetivo (COE), que considera os gastos correntes da propriedade, aumentou 0,73% ante abril na “média Brasil” (BA, GO, MG, PR, RS, SC e SP). O principal motivo foi a elevação de 1,8% no preço do concentrado – puxado pela alta do milho. Por outro lado, os valores de suplementação mineral ficaram estáveis em um momento importante, já que com o início da seca, o produtor recorre mais à alternativa. De janeiro a maio, o COE registra alta de 4,26%.
 
As relações de troca com milho e sal mineral ficaram mais favoráveis para o pecuarista com o aumento do preço recebido pelos produtores. O poder de compra cresceu em 4,4% para o milho e em 24,9% para o sal mineral. Enquanto em abril eram necessários 31,6 litros de leite para comprar uma saca de 60 kg de milho e 57,55 litros de leite para adquirir um saco de 30 kg de fósforo 65g, em maio, foram necessários 30,2 litros e 43,21 litros para adquirir os mesmos insumos, respectivamente, informa o Cepea.
 
Os pesquisadores ressaltam, porém, que a alta nos preços e relações de troca mais favoráveis não significam lucratividade no campo. “De modo geral, o segmento produtivo enfrenta grandes desafios relacionados à capitalização e dificuldades em cobrir os custos com depreciação, que asseguram a atividade no longo prazo”.
 
Mercado externo
 
O volume de vendas externas de lácteos pelo Brasil em maio chegou ao menor patamar desde 2010 com 2,4 milhões de litros em equivalente leite. A baixa é de 55,1% em relação a abril. “Os embarques mais baixos são resultado da menor produção brasileira de leite, intensificada pelo início da entressafra, além do desestímulo de produtores frente aos baixos preços no início de 2018”, informa o Cepea. Queijos e leite condensado foram os produtos mais exportados.
 
Quanto às importações, o Brasil adquiriu 102 milhões de litros em equivalente leite em maio, 13,8% mais do que em abril, mas 14,9% menos do que em maio de 2017. O principal produto importado continua sendo o leite em pó, com 75,5% de participação no total. Argentina e Uruguai lideram as vendas, com 50,3% e 40,7% de representação no total, respectivamente.

Fonte: DBO Rural
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