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Ajustes na dieta impactam na eficiência hídrica da produção de leite

15 de março de 2018

O uso de água na pecuária pode ser reduzido. Foi o que mostrou uma pesquisa da Embrapa Pecuária Sudeste (SP). O estudo mostrou que algumas ações podem interferir, direta e indiretamente, no consumo hídrico, e que ajustes na dieta dos bovinos impactam na pegada hídrica do leite.

 
Para chegar a essa conclusão, pesquisadores avaliaram, durante um ano, dois grupos de vacas em lactação com dietas contendo teores de proteína diferentes. O Grupo 1 recebeu concentrado com 20% de proteína bruta no período da lactação, enquanto o Grupo 2 teve o teor proteico do concentrado ajustado de acordo com as exigências nutricionais e a produção de leite.
 
O objetivo foi conhecer o impacto da intervenção nutricional no valor da pegada hídrica do leite e na ingestão de água pelos animais. A variação no concentrado oferecido ao Grupo 2 possibilitou a redução dos consumos das águas verde, azul e cinza (veja quadro) e da pegada hídrica do leite. No total, o consumo diário de água foi três litros menor por animal.
 
Segundo o pesquisador Julio Palhares, da Embrapa Pecuária Sudeste, pensando em um rebanho médio de gado leiteiro de 100 vacas, considerando que o período de lactação é em torno de dez meses (305 dias), a economia seria de 91.500 litros de água.
 
Para a zootecnista Táisla Novelli, também responsável pela pesquisa, essa redução de consumo deve ser vista não só do ponto de vista econômico, mas ambiental. “A água não consumida fica disponível para outras atividades”, acrescenta. De acordo com ela, essa nutrição mais precisa é uma ferramenta a mais para o produtor ter a mão, que pode ser convertida em maior produção e benefícios ambientais.

A pesquisa
Para determinação do consumo de água no sistema de produção foram selecionados dois grupos experimentais, cada um contendo sete vacas em lactação. O experimento foi realizado durante 12 meses no Sistema de Produção de Leite (SPL) da Embrapa Pecuária Sudeste, com 14 vacas das raças holandesas e jersolanda.
 
As dietas fornecidas a cada grupo continham os mesmos ingredientes, mas com percentuais proteicos diferentes na composição do concentrado, elaborado com milho, farelo de soja, bicarbonato de sódio e sal mineral.
 
As vacas se alimentavam de gramíneas tropicais (Tanzânia), silagem de milho e o concentrado contendo níveis de proteína bruta diferenciados. O Grupo 1 recebeu uma dieta contendo 20% de proteína bruta por toda a lactação. O ajuste proteico do concentrado do Grupo 2 ocorreu de acordo com as exigências nutricionais e a produção de leite média no mesmo período.
 
As avaliações para conhecer o consumo da água verde, azul e cinza e a pegada hídrica do leite foram baseadas no método apresentado no Manual de Avaliação da Pegada Hídrica, proposto pelo professor holandês Arjen Hoekstra. Segundo Novelli, tal metodologia mostrou-se adequada para explicitar a eficiência hídrica do leite, estabelecendo indicadores de uso direto e indireto da água. “A pegada hídrica nada mais é do que o volume de água consumido para produzir o produto”, explica.
 
Para Palhares, conhecer o valor da pegada pode colaborar para evitar o desperdício e melhorar a gestão da água nas propriedades e nas cadeias de produção. Além disso, contribui para validar e recomendar práticas e tecnologias mais eficientes no uso da água, como o ajuste nutricional, por exemplo.

Resultados
As sete vacas do Grupo 2, que tiveram a dieta manipulada de acordo com a necessidade, mostraram melhor eficiência no uso da água. A pegada hídrica do leite do Grupo 2 foi menor, 453 litros por quilo de leite, enquanto a do Grupo 1 foi de 504 litros por quilo de leite.
 
Entre as três águas, a verde, utilizada na produção de alimentos para os animais, foi a que apresentou maior consumo nos dois grupos. Isso confirma a importância da eficiência hídrica na agricultura. A pegada hídrica verde do Grupo 1 foi de 434 litros por quilo de leite e do Grupo 2, 386. Por animal, 62 litros por quilo de leite do Grupo 1, e 55, do Grupo 2. Considerando essa diferença para o rebanho de 14 vacas em lactação da pesquisa, a intervenção nutricional representaria uma economia de 29.890 litros de água verde por lactação.
 
No caso da água azul, a irrigação das pastagens representou o maior consumo. Técnicas mais eficientes e que proporcionem menor perda por evaporação podem contribuir na redução da pegada hídrica azul. O correto manejo nutricional também é uma opção para diminuir a utilização dessas fontes. A redução do teor de proteína na dieta, além de possibilitar melhor conversão alimentar dos nutrientes, diminui a ingestão direta de água pelas vacas, de acordo com os dados da pesquisa.
 
O consumo de nitrogênio em excesso na dieta aumenta a ingestão de água devido a uma resposta fisiológica do animal para diluir e eliminar esse excedente. Além disso, há o risco ambiental. O nitrogênio contido nas fezes e urina apresenta potencial de volatilização e consequente impacto na qualidade do ar, podendo ainda contaminar as águas superficiais e subterrâneas e o solo. “A nutrição de precisão é uma ferramenta que temos à disposição para reduzir o uso de recursos naturais e insumos pela produção animal”, acredita Táisla Novelli.
 
Outro resultado importante da pesquisa está relacionado à produção de leite. A produtividade do Grupo 2 não foi afetada, mesmo quando houve redução do teor de proteína. “Isso significa que o Grupo 2 produziu maior quantidade de leite, com menos litros de água e com menor quantidade de concentrado. O resultado é a redução do valor da pegada hídrica, essencial para uma produção animal mais sustentável, e dos custos com aquisição de concentrado”, explica Palhares.
 
Em relação à água cinza, o Grupo 2 igualmente apresentou melhor resposta. Os animais geraram menor carga de poluente, consequentemente foi necessário menor quantidade de água para alcançar os parâmetros ambientais recomendados, ou seja, menor consumo de água cinza.

Fonte: Gisele Rosso | Embrapa Sudeste
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