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Com crise na JBS, setor pecuário quer cooperativas e reativar frigoríficos

16 de junho de 2017

O mercado de carnes busca saídas para o vácuo que a JBS deixou na comercialização de gado. A empresa teve reduzida a sua participação nas compras de animais após o acordo de delação premiada de seus donos.

O foco do setor é desconcentrar esse mercado, que está nas mãos de poucos frigoríficos. A JBS, por si só, detém 49% dos abates de Mato Grosso, Estado que tem o maior rebanho do país.

No país todo, a capacidade de abate da empresa chega a 25% do total nacional.

Os objetivos dos produtores são reativar frigoríficos parados, incentivar a chegada de novas empresas ao setor e montar cooperativas de pecuaristas.

Mesmo com grande sucesso na agricultura, as cooperativas dificilmente vingavam na pecu√°ria. Boa parte do rebanho bovino era negociada sem nota fiscal, e os pecuaristas n√£o aceitavam a ideia de criar cooperativas.

Os tempos mudaram e o controle sobre os frigoríficos está mais rigoroso, o que permite o surgimento desse tipo de empresa.

Foco

A viabiliza√ß√£o de cooperativas √© um dos objetivos da Acrimat (Associa√ß√£o dos Criadores de Mato Grosso). Luciano Vacari, diretor­executivo da entidade, diz que a associa√ß√£o n√£o vai montar cooperativas. "Esse n√£o √© nosso neg√≥cio."

A Acrimat vai procurar consultorias, bancos e modelos atuais de cooperativas para "construir planos de negocia√ß√Ķes", diz ele.

Levantadas essas informa√ß√Ķes, a associa√ß√£o vai disponibiliz√°­las para os produtores. "Mato Grosso tem espa√ßo para reativar plantas fechadas ou at√© abrir outras. O lugar de fazer isso √© aqui", afirma Vacari.

As cooperativas regionais ser√£o importantes, uma vez que, em algumas regi√Ķes, o produtor, quando n√£o quer vender o gado para a JBS, precisa viajar at√© mil quil√īmetros com o animal.

Roberto Rodrigues, ex­ministro da Agricultura e entusiasta do sistema de cooperativas, diz que agora h√° espa√ßo para esse sistema no setor de carnes.

Rodrigues adverte, no entanto, que algumas condi√ß√Ķes s√£o necess√°rias para a concretiza√ß√£o do projeto.

Uma delas √© as pessoas participantes se conscientizarem de que a cooperativa √© essencial para elas. √Č uma empresa e, portanto, tem de ter viabilidade econ√īmica. Na avalia√ß√£o de Rodrigues, o processo de constitui√ß√£o de cooperativas exige lideran√ßa.

Além das cooperativas, projeto que exige investimentos, a Acrimat quer medidas emergenciais do Estado para o setor.

Uma delas √© a redu√ß√£o para zero –atualmente √© de 7%– da taxa de ICMS para o gado que ser√° abatido em outros Estados.

A Acrimat quer também que o governo de Mato Grosso adira ao Sisbi (Sistema de Inspeção de Produtos de Origem Animal).

Com isso, as carnes com inspe√ß√Ķes municipal, estadual ou federal poderiam ser comercializadas no pa√≠s todo.

Jorge Pires, pecuarista e presidente do Sindicato Rural de Cuiab√°, acredita no desenvolvimento de cooperativas. Cresce o n√ļmero de produtores que praticam integra√ß√£o lavoura­pecu√°ria, o que, segundo ele, aumenta o interesse pelas cooperativas.

Pires diz que é importante a reativação de frigoríficos parados. Alguns passos nessa direção já começam a ser dados. Ele cita o frigorífico de Mirassol D'Oeste (MT), que volta funcionar em julho.

Elevar capacidade

Pedro Camargo Neto, pecuarista e vice­presidente da Sociedade Rural Brasileira, afirma que o retorno de unidades paradas √© importante para a atividade.

Segundo ele, a JBS tem capacidade de abate de 35 mil animais por dia no Brasil, mas está abatendo menos de 20 mil. Os frigoríficos atuais não têm capacidade de assumir o total de animais que a JBS está deixando de abater.

Daí a necessidade de novas unidades industriais para viabilizar essa comercialização. O problema é que tudo isso está acontecendo às portas do inverno, período de piora das pastagens.

Na avalia√ß√£o de Camargo Neto, a mudan√ßa da forma de comercializa√ß√£o da JBS, para apenas compras a prazo, acabou trazendo um √īnus para o pecuarista.

O pagamento √† vista das 35 mil cabe√ßas de gado gerava um gasto di√°rio de R$ 87,5 milh√Ķes para a empresa.

Ao fazer o pagamento apenas a prazo, a JBS tem um capital de giro pr√≥ximo de R$ 2 bilh√Ķes por m√™s "√† custa do pecuarista", diz ele.

Consultada, a JBS emitiu nota afirmando que "padronizou todos os processos de compra de gado no Brasil, com pagamento no prazo de 30 dias, o que já ocorria em 97% das praças onde atua". "O pagamento em 30 dias sempre foi o padrão no mercado brasileiro. A companhia prossegue trabalhando normalmente", informa a nota.


Fonte: Folha de S.Paulo
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