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O mergulho do dólar

16 de fevereiro de 2017

Juros altos são fator de baixa das cotações da moeda estrangeira nos mercados de câmbio, mas, no Brasil, isso não vem sendo relevante. Hoje, a principal razão do aumento da entrada de moeda estrangeira e da queda de seu preço é a percepção de que a economia brasileira está reengrenando.

Nesta quarta-feira, as cotações do dólar no câmbio interno caíram a seu menor nível desde 18 junho de 2015. Fecharam em R$ 3,06, o que perfaz uma baixa de 5,89% nestes primeiros 46 dias de 2017.


Quem atribui o mergulho do dólar aos juros altos imagina que uma grande massa de capitais especulativos entra no Brasil para calçar operações de arbitragem. Esta consiste em levantar recursos a juros muito baixos lá fora para aplicá-los a curto prazo no mercado brasileiro para tirar proveito dos juros baixos. Ou, então, em deixar aplicados no mercado financeiro interno recursos que deveriam ser remetidos ao exterior.

A gente sabe que a derrubada das cotações do dólar no câmbio interno tem pouco a ver com operações de arbitragem com juros porque as estatísticas do Banco Central não acusam entradas substanciais de recursos destinados a aplicações no mercado financeiro interno. Isso não aconteceu nem quando os juros estavam mais altos do que estão agora.

Os capitais acorrem ao Brasil, especialmente para investimento, por outras razões. Não só porque há enorme liquidez nos mercados em consequência do despejo de moeda pelos grandes bancos centrais, mas, também, porque aumenta a percepção do investidor de que a economia brasileira está sendo saneada. Nesta terça-feira, por exemplo, a influente revista Forbes publicou matéria cujo título é: "O Brasil é agora o mais quente entre os mercados dos grandes emergentes".

Sempre que o dólar desliza pelo tobogã, os dirigentes da indústria ficam aflitos com a perda de competitividade do setor produtivo brasileiro e querem pronta intervenção do Banco Central na compra de moeda estrangeira. Mas há limites para isso. Se atuar contra tendência firme de melhora da economia e, portanto, de valorização do real, o Banco Central fica sujeito a produzir distorções.

Ao longo de 2014 e 2015, o Banco Central fez operações de swap cambial, equivalentes à venda de dólares no mercado futuro. Com isso, ficou com o estoque de títulos de dívida que ultrapassou os US$ 114,9 bilhões em 2015. Hoje ainda há o equivalente a US$ 26,5 bilhões na prateleira.

Enfim, o Banco Central pode e deve atuar no mercado de câmbio desde que não nade contra uma correnteza forte demais. Comprar mais reservas cambiais, hoje nos US$ 370 bilhões, também não faria sentido diante do enorme custo fiscal que provocaria. Paradoxalmente, se é para produzir desvalorização do real, o mais eficaz é trabalhar para o aprofundamento da crise econômica e para a perda de confiança.

A baixa do dólar tende a produzir três outros efeitos: barateia os produtos importados e os serviços pagos em moeda estrangeira (caso das passagens aéreas e das despesas ao exterior), aumenta sua demanda, e ajuda a derrubar a inflação.

Esse último item pode justificar mais intensa derrubada dos juros no mercado interno e, assim, contribuir para aumento da confiança na economia. Mas é improvável que ajude a segurar o câmbio.

Os gráficos mostram a evolução dos juros básicos (Selic) e a evolução da cotação do dólar em reais desde 2015 até esta quarta-feira. É indicação de que não tem havido correlação relevante entre as duas curvas.

O avanço da Bolsa O mesmo fortalecimento do otimismo que vem provocando baixa do dólar atua pela alta da Bolsa de Valores. Nestes 46 dias de 2017, o Índice Bovespa valorizou-se 12,87%. No período de 12 meses terminado nesta quarta-feira, a valorização da Bolsa é de 69,55%.


Fonte: Celso Ming / Estadão
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